Um filme feito em Pelotas pode ser assistido por alguém do outro lado do mundo no mesmo dia em que é publicado. Dá pra aprender uma técnica com alguém que nunca pisou no Brasil, trabalhar com uma equipe à distância e inscrever uma obra num festival sem sair de casa. Pra quem cria fora dos grandes centros, essas possibilidades fazem uma diferença enorme.

Mesmo assim, acho precipitado dizer que a localização deixou de importar.

Quando se fala sobre trabalhar pela internet, boa parte da conversa gira em torno de conseguir produzir e entregar de qualquer lugar. Faz sentido. Só que uma carreira criativa envolve outras coisas além da entrega. Envolve conhecer o trabalho de alguém mais de perto, acompanhar uma produção, apresentar uma ideia enquanto ela ainda está tomando forma. Nem sempre existe um convite ou uma reunião marcada pra isso acontecer.

Penso, por exemplo, na diferença entre assistir a um filme pela internet e estar numa sessão em que dá pra conversar com quem fez. O filme pode ser exatamente o mesmo, mas uma pergunta da plateia pode abrir uma discussão que não estava prevista. Quem chegou pra assistir também tem referências, experiências e projetos. Há uma possibilidade de troca ali que depende de estar junto e ter tempo pra conversar.

Isso pode acontecer pela internet também. Existem parcerias e comunidades inteiras construídas à distância. Eu não acho que uma conversa precise acontecer presencialmente pra ter valor. A questão é quanto esforço cada pessoa precisa fazer pra encontrar esses espaços e conseguir participar deles com alguma frequência.

Quem mora perto de um circuito de eventos pode ir a uma atividade e voltar pra casa naquela noite. Pra outra pessoa, a mesma participação exige passagem, hospedagem e alguns dias longe do trabalho. Essa diferença continua existindo, por mais acessíveis que tenham ficado as ferramentas de criação.

Eu trabalho em Pelotas e vejo muita possibilidade em criar daqui. Parte do que faço tem uma relação direta com a cidade, e a internet permite que esses trabalhos encontrem pessoas que talvez nunca viessem conhecê-la. Ao mesmo tempo, tenho interesse em circular por outros ambientes e descobrir o que essa convivência pode acrescentar ao meu trabalho.

Não vejo motivo pra tratar essas vontades como incompatíveis. Gostar de onde se vive não elimina a curiosidade pelo que acontece em outros lugares. E querer participar de um circuito maior não deveria exigir abandonar o lugar de onde se veio.

Talvez a pergunta mais útil seja como tornar essa participação possível com mais frequência. Transmitir uma palestra já permite que mais gente acompanhe. Mas como incluir quem está longe nas conversas, nas colaborações e nos projetos que surgem em torno dela? Essa parte da distância ainda merece atenção.